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Agenda-setting (teoria do agendamento): o que é, os 3 níveis e as críticas

Agenda-setting, ou Teoria do Agendamento, é a teoria segundo a qual os meios de comunicação não decidem o que o público pensa, mas sobre quais assuntos ele pensa. O poder da mídia, nessa visão, está em escolher a pauta: quais temas aparecem, com que destaque e com que frequência. Porque quanto mais um assunto é noticiado, mais importante ele parece para quem acompanha o noticiário.

Uma metáfora ajuda a entender melhor… Por exemplo, você entra em um restaurante e escolhe livremente o que vai comer. Só que você não escolhe quais pratos estão no cardápio desse restaurante. E a Teoria do Agendamento é sobre quem escreve esse cardápio.

A teoria foi formulada pelos pesquisadores americanos Maxwell McCombs e Donald Shaw, a partir de um estudo feito na eleição presidencial de 1968 e publicado em 1972. É uma das mais cobradas em provas de Teorias da Comunicação, e também uma das mais mal explicadas.

O que você vai ler neste artigo
  1. Resumo da teoria do agendamento
  2. De onde veio a teoria: a pergunta que não tinha resposta
  3. A frase de Bernard Cohen
  4. O estudo de Chapel Hill (1968)
  5. Agendamento não é manipulação
  6. Necessidade de orientação: por que uns são mais pautados que outros
  7. Os três níveis do agendamento
  8. Agenda-setting nas redes sociais
  9. Críticas à teoria do agendamento
  10. Teoria ou hipótese do agendamento?
  11. Agenda-setting e espiral do silêncio
  12. Perguntas frequentes

Resumo da teoria do agendamento

  • O que diz: a mídia influencia quais assuntos o público considera importantes, e não a opinião que ele tem sobre esses assuntos.
  • Quem criou: Maxwell McCombs e Donald Shaw.
  • Quando: pesquisa feita em 1968, em Chapel Hill (Carolina do Norte, Estados Unidos); artigo publicado em 1972.
  • Origem da ideia: uma frase do cientista político Bernard Cohen, de 1963.
  • Conceito-chave: necessidade de orientação, que explica por que umas pessoas são mais pautadas do que outras.
  • Níveis: primeiro (quais temas), segundo (quais atributos de cada tema) e terceiro (quais temas andam juntos).
  • Principal crítica: o estudo original mostra só correlação. A prova de causa veio depois, com experimentos.

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De onde veio a teoria: a pergunta que não tinha resposta

Durante décadas, a pesquisa em comunicação girou em torno de uma pergunta: a mídia consegue mudar a cabeça das pessoas?

No começo, parecia que sim. Foi a época da Teoria Hipodérmica, que via o público como uma massa que recebia a mensagem e reagia do jeito previsto. Depois de um certo tempo vieram as pesquisas de campo. Paul Lazarsfeld e sua equipe acompanharam a eleição americana de 1940 e concluíram que a campanha quase não mudava votos: reforçava quem já tinha decidido e convertia pouquíssima gente. Em 1960, Joseph Klapper reuniu essas conclusões em um livro, e a ideia ficou conhecida como Teoria dos Efeitos Limitados.

Isso deixou a pesquisa num beco. Se a mídia convence tão pouca gente, qual é, afinal, o poder dela? A resposta do agendamento foi mudar a pergunta… Em vez de perguntar se o restaurante obriga você a comer o prato da casa, perguntar quem escreveu o cardápio.

Para a sequência completa dessas fases, veja o texto sobre comunicação de massa e o panorama das teorias da comunicação.

A frase de Bernard Cohen

A ideia central apareceu quase dez anos antes de McCombs e Shaw, em um livro de 1963 sobre imprensa e política externa, The Press and Foreign Policy, do cientista político Bernard Cohen. Em tradução livre:

A imprensa pode não ter sucesso, na maior parte do tempo, em dizer às pessoas o que pensar, mas é extraordinariamente bem-sucedida em dizer aos seus leitores sobre o que pensar.

Bernard Cohen, The Press and Foreign Policy (1963)

Repare num detalhe que confunde muita gente, inclusive em traduções de livros: a frase fala em sobre o que pensar, e não em como pensar. Parece pouco, mas essa diferença é a teoria inteira. O poder descrito por Cohen está em definir quais temas entram no repertório das pessoas, sem mexer no conteúdo do que elas pensam sobre esses temas.

O estudo de Chapel Hill (1968)

McCombs e Shaw transformaram a frase de Cohen numa comparação simples: duas listas, uma ao lado da outra.

A lista do público. Os pesquisadores escolheram uma única cidade, Chapel Hill, para não ter de lidar com diferenças de região e de jornal local. Selecionaram cinco zonas eleitorais que representavam a cidade em termos econômicos, sociais e raciais e fizeram 100 entrevistas. Só seguia na pesquisa quem ainda não tinha decidido o voto: quem já decidiu tende a filtrar tudo para confirmar a própria escolha, e o indeciso está mais aberto ao que a mídia mostra.

A pergunta era, em resumo: independentemente do que dizem os políticos, quais são as duas ou três coisas principais com que o governo deveria se preocupar? O trecho “independentemente do que dizem os políticos” pedia que a pessoa falasse por si mesma, em vez de repetir a campanha. Ou seja, o estudo dificultou o próprio resultado.

A lista da mídia. Os pesquisadores analisaram nove veículos (jornais da região e telejornais da noite), classificaram o conteúdo em 15 categorias e separaram as matérias de destaque das secundárias, pelo espaço, pela posição na página e pelo tempo no ar.

O resultado. Quando as duas listas foram comparadas, a correspondência foi altíssima: correlação de +0,967 nas matérias de destaque e de +0,979 nas secundárias. Os assuntos que mais apareciam na mídia eram os que os eleitores apontavam como mais importantes. O artigo saiu em 1972 na revista Public Opinion Quarterly, com o título The Agenda-Setting Function of Mass Media.

Atenção às datas, que as bancas gostam de trocar: a pesquisa é de 1968, mas o artigo que fundou a teoria é de 1972.

Agendamento não é manipulação

Esta é a confusão mais comum. Muita gente ouve “a mídia define a pauta” e entende “a mídia manipula as pessoas”.

O próprio desenho da pesquisa mostra por que essa leitura está errada. McCombs e Shaw não perguntaram em quem a pessoa ia votar, nem se ela era a favor ou contra alguma coisa. Perguntaram com o que o governo deveria se preocupar. O estudo mede prioridade, e não opinião.

Além disso, o agendamento nasce depois que a persuasão direta já tinha sido derrubada pelos efeitos limitados. Ele descreve o poder que sobrou à mídia depois dessa derrota.

Isso não significa que manipulação não exista. Ela existe e foi estudada por outras correntes, como a Escola de Frankfurt e a ideia de indústria cultural (tenho um vídeo sobre isso). O agendamento só não é sobre isso.

Necessidade de orientação: por que uns são mais pautados que outros

O estudo de Chapel Hill comparou uma cidade inteira com a mídia inteira. Mas ninguém é uma média, e certamente havia ali gente que não se deixava pautar por nada. Para explicar essa variação, McCombs e David Weaver propuseram, em 1973, o conceito de necessidade de orientação.

A ideia: quando estamos numa situação que não conhecemos, procuramos um mapa. Na vida pública, esse mapa é o jornalismo. Só que a procura depende de duas coisas: a relevância (o quanto o assunto importa para você) e a incerteza (o quanto você acha que já sabe sobre ele).

Aqui quase todo mundo entende ao contrário e conclui que quem sabe menos é sempre quem se deixa pautar mais. A variável que manda é a relevância. Se o assunto não importa para você, não saber nada sobre ele não faz você ir atrás.

GrauSituaçãoNecessidade de orientação
1O assunto não te interessa, saiba você muito ou poucoBaixa
2O assunto te interessa, e você acha que já está informadoMédia
3O assunto te interessa, e você sente que não sabe o suficienteAlta

É no terceiro grau que o agendamento age com mais força. Se você chegou a este texto procurando o que é agenda-setting, você está nele.

Não confunda necessidade de orientação com centralidade do tema. A centralidade (em inglês, obtrusiveness, conceito que aparece em Mauro Wolf) é uma característica do assunto: se ele faz parte da experiência direta das pessoas, como o preço do mercado, ou se só chega pela mídia, como a política externa. A necessidade de orientação é uma característica da pessoa.

Os três níveis do agendamento

Voltando ao cardápio: ele diz três coisas. Quais pratos existem, como cada um é descrito e o que combina com o quê. Cada uma corresponde a um nível da teoria.

NívelO que a mídia defineNo cardápioReferência
PrimeiroQuais temas importamQuais pratos existemMcCombs e Shaw (1972)
Segundo (agendamento de atributos)Como cada tema é descrito“Filé com molho” ou “filé maturado por 40 dias ao molho de vinho tinto”McCombs e colegas, anos 1990
Terceiro (Network Agenda Setting)Quais temas aparecem ligados“Acompanha bem com”, menu degustaçãoGuo e McCombs (2011)

Primeiro nível: os temas

É o que o estudo de Chapel Hill mediu: a mídia ajuda a definir a hierarquia de assuntos que o público considera importantes.

Segundo nível: os atributos

A mídia não escolhe só quais temas entram, mas também quais características de cada tema ganham destaque. Esses atributos são de dois tipos:

  • Substantivos: as características em si. No caso de um candidato, a experiência, as propostas, a trajetória.
  • Afetivos: o tom da cobertura, positivo, negativo ou neutro.

Juntos, eles formam a imagem que as pessoas fazem de alguém ou de algo. E alguns atributos têm mais força que outros. Imagine dois veículos cobrindo o mesmo problema, no mesmo dia, com o mesmo espaço. Um apresenta números de gestão; o outro conta a história de uma pessoa afetada. A quantidade de cobertura é igual, mas o segundo faz muito mais gente achar que aquilo é importante.

É neste nível que o agendamento encosta no enquadramento (framing). Até hoje há debate sobre se os dois conceitos são a mesma coisa ou não.

Terceiro nível: as conexões

Proposto por Lei Guo e Maxwell McCombs em 2011, o Network Agenda Setting diz que, quando dois assuntos aparecem sempre juntos na cobertura, eles passam a andar juntos na cabeça do público. Nesse nível, o que a mídia transfere é um mapa de ligações entre temas.

Agenda-setting nas redes sociais

Tudo isso foi pensado para um mundo com poucos veículos, em que todos liam os mesmos jornais e viam os mesmos telejornais. Chapel Hill era um restaurante com um cardápio só, igual para todo mundo.

Hoje, cada pessoa recebe um cardápio diferente, e quem o monta é um sistema que aprende com o que você faz. O mecanismo continua existindo, mas mudou de lugar:

  • Agendamento reverso. A pauta também sobe do público para a mídia: um assunto viraliza, entra nos assuntos do momento e vira matéria no telejornal da noite.
  • Agenda building. A disputa para colocar um tema na pauta sempre existiu (governos, empresas, assessorias, movimentos sociais). Agora entrou um participante novo, que não é gente: o sistema de recomendação.
  • O terceiro nível no feed. O feed não entrega uma lista numerada dos assuntos do dia. Ele entrega vizinhança: este tema sempre perto daquele, esta pessoa sempre falando deste tipo de coisa. O que se aprende ali é o que combina com o quê.

Para mim, essa é a parte mais interessante da teoria hoje. No jornal, você sabia que havia um editor decidindo a pauta; às vezes sabia até o nome dele. No feed, quem escreve o cardápio, e com qual critério?

Críticas à teoria do agendamento

1. Correlação não é causa. A primeira crítica está no próprio artigo de 1972. McCombs e Shaw escreveram que as correlações encontradas não provavam a função de agendamento; mostravam as condições para que ela existisse. Duas listas parecidas não dizem quem copiou quem: a mídia podia estar pautando o público ou cobrindo o que o público já estava preocupado em saber. A prova causal veio em 1987, com os experimentos de Shanto Iyengar e Donald Kinder no livro News That Matters: eles controlaram quanta cobertura cada grupo via sobre um tema e mediram a importância dada ao assunto antes e depois.

2. O público visto como receptor. A teoria trata o público como quem recebe a pauta. Os estudos culturais, com Stuart Hall, mostram pessoas negociando, recusando e interpretando as mensagens na contramão.

3. A agenda da mídia no singular não existe mais. Com a mídia fragmentada e cada pessoa escolhendo as próprias fontes, há pesquisadores, como W. Lance Bennett e Shanto Iyengar (2008), falando numa “nova era de efeitos mínimos”. Outros, como Adam Shehata e Jesper Strömbäck (2013), respondem que o agendamento continua mensurável, só que mais desigual de um grupo para outro.

Teoria ou hipótese do agendamento?

Você vai encontrar os dois nomes, e a escolha tem motivo.

Mauro Wolf, autor do manual de teorias da comunicação mais usado no Brasil, chama o agendamento de hipótese. Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino e Vera França, na coletânea Teorias da Comunicação, seguem a mesma linha, com o argumento de que uma teoria é um sistema fechado e o agendamento ainda é um caminho a comprovar. Do outro lado, há autores que defendem que ele já tem o estatuto de teoria.

Na prova: se a banca costuma usar Mauro Wolf como referência, a resposta esperada é “hipótese do agendamento”.

Agenda-setting e espiral do silêncio

As duas teorias costumam ser estudadas em sequência. O agendamento explica sobre o que a gente fala; a espiral do silêncio explica por que, às vezes, a gente prefere ficar calado. Juntas, ajudam a entender como a opinião pública se forma.

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    Perguntas frequentes

    O que é agenda-setting?

    É a teoria segundo a qual os meios de comunicação influenciam quais assuntos o público considera importantes. A mídia não decide o que as pessoas pensam, mas sobre o que elas pensam.

    Quem criou a teoria do agendamento?

    Maxwell McCombs e Donald Shaw, a partir de uma pesquisa feita em 1968 em Chapel Hill, nos Estados Unidos, e publicada em 1972. A ideia central já aparecia numa frase de Bernard Cohen, de 1963.

    Qual é a frase mais famosa do agenda-setting?

    “A imprensa pode não ter sucesso em dizer às pessoas o que pensar, mas é extraordinariamente bem-sucedida em dizer sobre o que pensar.” Ela é de Bernard Cohen, quase dez anos antes do estudo de McCombs e Shaw.

    Quais são os três níveis do agendamento?

    O primeiro trata dos temas que a mídia destaca; o segundo, dos atributos de cada tema (agendamento de atributos); o terceiro, das ligações entre os temas (Network Agenda Setting).

    O que é necessidade de orientação?

    É o quanto uma pessoa busca informação sobre um assunto. Depende da relevância do tema para ela e da incerteza que ela sente. Quanto maior a necessidade de orientação, maior o efeito de agendamento.

    Agenda-setting é manipulação?

    Não. A teoria mede quais assuntos as pessoas consideram prioritários. A opinião delas sobre esses assuntos fica fora da medida.

    É teoria ou hipótese do agendamento?

    Os dois nomes são usados. Mauro Wolf e outros autores brasileiros preferem “hipótese”, porque consideram que o agendamento ainda não é um sistema fechado. Em provas que usam Wolf como referência, a resposta esperada é “hipótese”.

    Qual a diferença entre agenda-setting e agenda building?

    Agenda-setting é a influência da agenda da mídia sobre a agenda do público. Agenda building é a disputa de governos, empresas, fontes e grupos para colocar temas na agenda da própria mídia.

    No fim, o que a teoria diz é que ninguém precisa obrigar você a pedir nada. Basta escrever o cardápio: decidir quais pratos existem, como cada um é descrito e o que combina com o quê. A escolha continua sendo sua, e é justamente por isso que funciona tão bem. E você: qual assunto apareceu tantas vezes no seu feed esta semana que acabou parecendo mais importante do que provavelmente é? Conte nos comentários.

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