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Tratamento de silêncio: o que é, por que dói e como reagir

Tratamento de silêncio é quando alguém para de falar com você, por horas ou dias, para te punir, te controlar ou te fazer sentir culpa. A pessoa não explica o que aconteceu, não responde quando você tenta conversar e, assim, espera que você descubra sozinho o que fez de errado. No Brasil, muita gente chama isso de “dar gelo”.

Imagine uma discussão boba, dessas que nem deveriam ter acontecido. No meio da frase, a pessoa para de falar, vira as costas e sai. Depois disso, toda tentativa de puxar assunto bate na mesma parede, e você não sabe se insiste, se dá espaço ou se o silêncio já é a resposta.

É essa dúvida que faz o tratamento de silêncio funcionar. Por isso, neste texto explico por que ele dói tanto, como diferenciar o silêncio que pune do silêncio de quem só precisa de um tempo, quais três frases usar para reagir e como evitar que o ciclo se repita.

O que você vai ler neste artigo
  1. O que é tratamento de silêncio
  2. Por que o tratamento de silêncio dói tanto
  3. Punição ou necessidade de espaço? Dois testes
  4. Como reagir ao tratamento de silêncio: três frases
  5. Como evitar que o ciclo se repita
  6. Tratamento de silêncio no relacionamento, no trabalho e na família
  7. E se for você quem dá o gelo?
  8. Para entender melhor as pessoas
  9. Perguntas frequentes

O que é tratamento de silêncio

Na psicologia, o comportamento tem dois nomes, que descrevem graus diferentes:

  • Stonewalling (de stone wall, muro de pedra): é quando a pessoa se fecha e se recusa a continuar a conversa. O termo é do psicólogo John Gottman, que incluiu o stonewalling entre os quatro comportamentos que mais anunciam o fim de um relacionamento porque estudou casais por décadas.
  • Desconfirmação: a versão mais pesada. A pessoa não só se cala, mas age como se você não estivesse ali. O professor de comunicação Joseph DeVito também descreve a desconfirmação como ignorar a presença e a fala do outro, como se ele não existisse.

Assim, nos dois casos, o silêncio carrega uma mensagem clara: “você está sendo castigado”.

Por que o tratamento de silêncio dói tanto

Ainda no século XIX, o psicólogo William James escreveu, em The Principles of Psychology, que não há castigo mais cruel do que viver entre as pessoas e ser completamente ignorado. Para ele, isso doía mais do que qualquer dor física, porque não deixa marca, não deixa prova e deixa você duvidando de tudo.

Há dois motivos para essa dor.

O primeiro é que ninguém aguenta ficar sem explicação. O cérebro não descansa enquanto não decifra o silêncio do outro. Então, ele interpreta, adivinha, procura uma culpa em algum lugar, só para parar de sentir aquele vazio. E enquanto você tenta decifrar, você fala mais, explica mais e se expõe mais, tentando preencher um vazio que o outro criou de propósito. Enquanto isso, quem se cala não precisa se preocupar com nada.

O segundo é o desequilíbrio de poder. Quanto mais o silêncio dói, menos coragem a pessoa tem de falar sobre ele. Por isso, quem está do lado mais fraco da relação engole a reclamação, com medo de uma briga maior ou de perder a relação de vez.

Juntando os dois, dá para entender por que essa forma de silêncio é tão perigosa: alguém te pune de propósito e, ainda assim, você tem medo até de dizer em voz alta que percebeu.

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Punição ou necessidade de espaço? Dois testes

Por fora, o tratamento de silêncio e o silêncio de alguém que está pensando parecem iguais. E é por isso que quase todo mundo reage errado. Quem corre atrás demais reforça o controle, se for manipulação, mas quem se afasta demais abandona alguém que só precisava de tempo.

Existe um silêncio que se volta contra você e outro que se volta para dentro. Marco Aurélio, nas Meditações, chamava o segundo de recolher-se à própria cidadela, ou seja, o lugar para onde a mente se retira para recuperar a clareza, longe da confusão de fora. (Também falo dessa ideia no vídeo sobre a cidadela interior.)

Dois testes ajudam, então, a separar um do outro.

Teste 1: esse silêncio precisa de plateia?

O tratamento de silêncio é uma encenação. Ele quer que você perceba, sinta o peso, questione o que fez e, então, vá atrás. Se você também se afastasse, sem pedir satisfação, ele perderia a graça, porque a graça sempre foi ver você desconfortável.

O silêncio de quem está pensando de verdade, porém, continua igual mesmo que ninguém preste atenção. Ele costuma aparecer, por exemplo, quando a pessoa ainda não sabe como dizer certas coisas.

Teste 2: esse silêncio tem prazo ou tem preço?

Se o silêncio acaba assim que você pede desculpas, implora atenção ou faz alguma coisa para “consertar”, ele é uma cobrança disfarçada.

Se acaba no tempo da outra pessoa, sem relação com o que você fez ou deixou de fazer, então é bem mais provável que seja necessidade real de espaço.

Tratamento de silêncioSilêncio de quem precisa de espaço
Precisa de plateia?Sim. Quer ser notado.Não. Continua igual se ninguém reparar.
Quando termina?Quando você cede, pede desculpas ou corre atrás.No tempo da pessoa, sem depender do que você faz.
O que você sente?Culpa e dúvida.Distância, mas sem castigo.
O que pede de você?Uma resposta clara, sem implorar.Paciência e um sinal de que você está disponível.

Saber qual dos dois você está vivendo muda, portanto, o que você faz em seguida.

Como reagir ao tratamento de silêncio: três frases

Se os testes apontaram para punição, há três caminhos. Nenhum deles implora e nenhum deles ataca, porque eles só reposicionam a conversa.

1. Faça uma pergunta aberta

Não peça desculpas antes de saber por quê. Então, troque o clássico “o que eu fiz de errado?” por:

“Percebi que você não fala comigo há dois dias. O que está acontecendo?”

2. Descreva o comportamento em voz alta

Diga exatamente o que a pessoa está fazendo, sem adjetivo e sem acusação:

“Você está do meu lado há dois dias sem trocar uma palavra comigo.”

Isso tira a tática do piloto automático, porque poucas pessoas sustentam um comportamento depois de ouvi-lo descrito de volta, sem enfeite.

3. Diga o efeito que isso tem em você

“Quando isso acontece, eu fico sem saber se devo te dar espaço ou se fiz alguma coisa errada. Prefiro resolver agora do que ficar adivinhando.”

Essa frase devolve a responsabilidade para onde ela sempre esteve e, assim, não abre uma guerra nova. É o mesmo princípio da comunicação não violenta: falar do que você sente e do que precisa, em vez de julgar o outro.

As três frases não garantem resposta na hora, nem desculpas. Mas elas garantem que você para de tratar cada minuto de silêncio como prova de alguma coisa.

Como evitar que o ciclo se repita

Reagir bem uma vez não impede que aconteça de novo. Por isso, a prevenção começa antes da próxima briga.

Quebre o seu próprio automatismo. Quando o silêncio chegar, não tente falar alguma coisa a cada cinco minutos. Pare, respire e espere um pouco, porque essa pausa serve para aplicar os dois testes antes de reagir.

Faça um combinado num momento tranquilo. Com quem você pretende continuar convivendo, converse, então, antes de qualquer briga. Diga que, da próxima vez que um dos dois ficar em silêncio, você precisa saber se é pedido de espaço ou se é raiva. Combinem um aviso simples, como “preciso de um tempo, depois a gente conversa”. Assim, fica muito mais difícil sustentar a manipulação quando os dois já concordaram, antes, em como lidar com isso.

Tratamento de silêncio no relacionamento, no trabalho e na família

  • No relacionamento amoroso: é onde o comportamento mais aparece, mas também onde mais corrói a confiança. Se a conversa entre vocês costuma terminar assim, leia também o texto sobre comunicação no amor.
  • No trabalho: o chefe que para de responder mensagens depois de uma discordância, o colega que deixa você fora das conversas da equipe. Aqui, a frase que descreve o comportamento costuma funcionar bem, de preferência por escrito e com foco no trabalho, por exemplo: “não recebi retorno sobre o projeto desde a reunião de segunda. Como seguimos?”. Quando o isolamento é repetido e deliberado, pode configurar assédio moral e, por isso, deve ser registrado.
  • Na família: o parente que “não fala mais com você” desde o último almoço. O combinado prévio é difícil, mas a pergunta aberta ajuda a tirar o assunto do terreno da adivinhação.

Muita gente associa o tratamento de silêncio ao narcisismo. O comportamento é comum em relações abusivas, mas sozinho não basta para dizer que alguém é narcisista. Por isso, observe o padrão, e não um episódio. Para os outros sinais de quem tenta controlar pela conversa, veja também o vídeo sobre como identificar um manipulador.

Se o silêncio vier junto com ameaças, humilhações ou medo, a prioridade é a sua segurança. Então, procure apoio de pessoas de confiança e de um profissional.

E se for você quem dá o gelo?

Vale fazer a pergunta a si mesmo, bem baixinho: alguma vez você já fez isso com alguém?

Às vezes o silêncio começa como proteção, porque a raiva está alta demais para falar, e vira castigo quando se arrasta por dias. Mas a diferença está em avisar. “Estou com raiva e preciso de um tempo, amanhã a gente conversa” é uma pausa. Sumir sem dizer nada e esperar que o outro adivinhe é o tratamento de silêncio.

A pausa curta, de segundos, antes de responder a uma provocação é outra coisa. Escrevi sobre ela no texto sobre o silêncio incômodo, que tem inclusive uma tabela comparando os dois. Além disso, para entender por que tanta gente se cala em grupo por medo de ficar isolada, leia sobre a espiral do silêncio.

Para entender melhor as pessoas

Se você costuma sair de uma conversa difícil pensando no que deveria ter dito, criei um material para consultar nesses momentos. O Mapas para Entender Pessoas reúne 40 mapas mentais sobre comportamento e conversas. Conheça o e-book aqui.

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    Perguntas frequentes

    O que é tratamento de silêncio?

    É parar de falar com alguém, por horas ou dias, como forma de punição ou controle, sem explicar o motivo. Também é chamado de “dar gelo”, stonewalling ou, na versão mais extrema, desconfirmação.

    Tratamento de silêncio é manipulação?

    Sim, quando é usado para castigar, gerar culpa ou fazer o outro ceder. Mas, quando a pessoa avisa que precisa de um tempo e volta a conversar, é uma pausa saudável.

    Como reagir ao tratamento de silêncio?

    Sem implorar e sem atacar. Primeiro, faça uma pergunta aberta (“o que está acontecendo?”); depois, descreva o comportamento sem adjetivos e, por fim, diga o efeito que ele tem em você.

    Devo correr atrás de quem me dá gelo?

    Correr atrás reforça o comportamento, se for punição. Mostre que está disponível para conversar, uma vez, de forma clara, e depois deixe a iniciativa com a outra pessoa.

    Quanto tempo dura o tratamento de silêncio?

    Não há regra, mas o que define o tratamento de silêncio é o objetivo de punir e o fato de ele terminar quando o outro cede.

    Qual a diferença entre tratamento de silêncio e silêncio incômodo?

    O silêncio incômodo dura segundos e serve para pensar antes de responder, enquanto o tratamento de silêncio dura dias e serve para castigar.

    Você pode fazer tudo certo hoje e, ainda assim, ficar sem resposta amanhã. Mas, quando você para de girar em torno do que o outro se recusa a dizer, o silêncio dele perde a força que tinha sobre você. Se quiser, conte nos comentários como você lida com isso.

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